Estudos de Caso

AReis_CSantana   Almirante Reis – Colina de Santana

A área da Av. Almirante Reis – Colina de Santana localiza-se no centro da cidade de Lisboa e  grande parte resistiu ao sismo de 1755. Este território tem adjacente o recém reabilitado Largo do Intendente e o bairro da Mouraria que se encontram em pleno processo de transformação. É uma área onde se localizam vários hospitais públicos (Hospital dos Capuchos, Hospital de São José e Hospital de Santa Marta), tal como uma série de outros edifícios simbólicos e culturais da cidade.

A Colina de Santana é um dos territórios onde a autarquia de Lisboa prevê intervir – a discussão está a ser feita desde o final de 2013. Referindo ter como objectivo reabilitar esta área da cidade, tida como envelhecida e degradada, o Plano de Acção Territorial para a Colina de Santana (2013), elenca uma série objectivos específicos:

  • Regenerar e reabilitar a Colina de Santana;
  • Reabitar e rejuvenescer o centro de Lisboa;
  • Promover a construção e /ou a reabilitação de habitações sociais e economicamente acessíveis (25% dos fogos);
  • Proteger e valorizar o património histórico e arquitetónico;
  • Promover a salvaguarda do património móvel de interesse cultural, testemunho da história hospitalar;
  • Promover a valorização do Turismo cultural;
  • Assegurar a abertura das antigas cercas hospitalares à cidade;
  • Melhorar as condições de acessibilidade à Colina;
  • Garantir que mais nenhum hospital fecha sem estar a funcionar o novo hospital; Garantir serviços de saúde de proximidade;
  • Promover a criação de condições para a instalação de novas atividades económicas e de serviços;
  • Aprofundar a avaliação e monitorização dos riscos naturais e antrópicos;
  • Desenvolver um projeto global de Eco Bairro em zona histórica.

A par deste plano que tem gerado muito debate na cidade de Lisboa, o Festival Todos que teve como território inicial a Mouraria/Intendente, tem tido actualmente o seu ‘palco’ na Colina de Santana, “com vista à dinamização deste área e à sua regeneração”, refere a autarquia no seu site. Paralelamente, têm surgido neste território uma série de espaços culturais e artísticos (livrarias e ateliers, por exemplo) que criam uma nova dinâmica.

Ana Estevens

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Alvalade   Alvalade

O bairro de Alvalade representa uma certa ideia de cidade pensada pelo Estado Novo, norteando algumas determinações vertidas no Plano de Diretor Municipal de 1938 – 48, com o propósito de colmatar a carência de oferta habitacional que se compadecia na capital, na década de quarenta.  Tendo por base o Plano de Urbanização da Zona Sul da Avenida Alferes Malheiro, com aprovação governamental de Outubro de 1945, e sob traço autoral de Faria da Costa (1906 – 1971), o seu desenho urbano continua a  motivar  uma interpretação de arrebatado interesse pelo jogo eclético que nele se projeta (Costa, 2005, Tostões, 2001), e no qual se identifica um repositório de gramáticas urbanísticas tão diferenciadas e que ganham acolhimento na cidade tradicional, na cidade-jardim, ou no movimento moderno.

Na esteira desta renovada gramática urbanística germinaria uma dinâmica endógena muito forte que soube atrair novos protagonistas vivamente empenhados em desenvolver novos tipos de sociabilidade, e que eram constituídos, essencialmente, por residentes jovens das classes médias intelectuais e criativas (André et all.2016), portadores de um “capital cultural e social importante” (Calbérac, 2005), legitimando o estatuto de Bairro Moderno, onde tudo acontecia e tornava-se obrigatório marcar presença.

A construção deste capital simbólico encontrar-se-ia associada a uma intensa cartografia de cafés que despontou em Alvalade no final dos anos cinquenta. O fulgor desta nova “essência urbana” far-se-ia especialmente no eixo da Praça de Londres – Avenida de Roma, que conformava uma tão grande concentração geográfica que quase aparentava um “bússola enlouquecida, que com um inesperado aparato compunha um puzzle de “cidades, países e remates toponímicos continentais num mesmo portulano imaginário – as Pastelarias Mexicana (1961/62) e Biarritz (1962), os cafés Luanda (1961), Sul América (1960), etc. – a nomes primorosos e insólitos compostos por fonemas simples e repetitivos como onomatopeias, 7 por serem lúdicos e fáceis de fixar, dos quais se destacavam os cafés Tique-Taque (1957) e o Vá-Vá(1958)” (André et al, 2016: 16).

Os cafés seriam a antecâmara de um teatro espontâneo do qual cada um se torna espetáculo, espectador e às vezes ator (Lefebvre, 1970), e que só desabrocharia em toda a sua plenitude com a Revolução de Abril de 1974. O balanceamento mais aliciante firmar-se-ia na confluência da Avenida de Roma com a Avenida dos E.U.A, onde se insinuava a presença de três cafés com tertúlias de enorme alcance criativo: o Vá-Vá, o Luandae a Pastelaria Suprema(André et al, 2016). Mas seria no Vá-Váque se imporia um capital simbólico mais inovador, especialmente através das suas tertúlias de cineastas que tantas vezes redundaram em cenários e elucubrações cinematográficas, a que podíamos juntar a forte presença dos jovens escritores que ousavam romancear nos seus livros a ossatura hodierna desta “cidade nova” e que arrastavam para as suas mesas músicos, artistas e jornalistas. O encalço desta cena cultural adquiriria um acrescido traço insurgente com a sagacidade afoita espelhada nas tertúlias ligadas aos movimentos estudantis, fruto da proximidade da Universidade de Lisboa e do Instituto Superior Técnico, e que se revestiria numa consciencialização colectiva das gerações mais novas de que a guerra colonial tinha de acabar e o regime cair.

Aquilino Machado

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Barreiro   Barreiro

O concelho do Barreiro, na margem esquerda do Tejo foi, ao longo do século XX, um importante pólo industrial. O seu desenvolvimento foi indissociável da instalação e consolidação do complexo industrial da CUF e de uma ampla infra-estruturação ferroviária do território, ambos responsáveis pela atração de população proveniente de outras regiões do país. Durante este período o concelho desenvolveu uma forte identidade cultural de matriz operária e popular, em grande medida associada aos movimentos de resistência à ditadura e ao Estado Novo que se foram constituindo. Concomitantemente, assistiu-se também ao desenvolvimento de diversas expressões de associativismo local, reflectido num grande número de colectividades com bastante dinamismo. Com o declínio da atividade industrial, iniciado a partir da década de 70 do século XX, o território perdeu população e teve de enfrentar o progressivo abandono de grandes espaços industriais que passaram a estar desocupados, assim como uma crescente degradação do parque habitacional. Este processo de transformação é equivalente ao experimentado por outras grandes cidades industriais na Europa e nos Estados Unidos (ex: Londres, Bruxelas, áreas urbanas do chamado Rust Belt).
Uma das tendências seguidas nos processos de reconversão destes espaços consiste na substituição da indústria por novos serviços e atividades de carácter eminentemente artístico e cultural. Na verdade, desde meados da década de 90 do século passado, o recurso à cultura e às artes enquanto instrumentos privilegiados para a transformação urbana, muitas vezes em estreita proximidade com o desenvolvimento da atividade económica, tornou-se bastante usual. Esta tendência, largamente inspirada na matriz de desenvolvimento de cidade defendida pelos proponentes da “cidade criativa”, é também observável no Barreiro.
Uma das faces visíveis deste processo é a requalificação da antiga Rua da União, que inclui um mural do artista plástico Vhils e a instalação de um núcleo de indústrias criativas no Parque Empresarial da Baía do Tejo. No entanto, a vitalidade de um ‘novo’ associativismo no Barreiro, em grande medida ligado também aos movimentos artísticos e culturais, sugere a possibilidade de existirem visões alternativas de cidade, potenciais novas urbanidades, também em construção neste município.
O Barreiro constitui-se, assim, como um caso de estudo que pretende examinar o papel das artes em processos de transformação de áreas (anteriormente) industriais. Através da realização de entrevistas a alguns dos principais intervenientes no processo, da observação participante de algumas atividades de natureza artística e da realização de grupos de discussão coletiva com atores-chave, analisamos o atual processo de transformação urbana do Barreiro através das artes, tendo em atenção três eixos analíticos principais: i) espacial – com enfoque na reconfiguração dos espaços, suas funções e dinâmicas; ii) sócio-institucional – colocando a tónica no tipo de relações existentes entre os principais atores da mudança; iii) cultural – prestando atenção à importância da identidade e da memória para o desenrolar do processo.

André Carmo, Sónia Pereira, Filipe Matos

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Chiado   Chiado

O Chiado é uma área privilegiada para o consumo e a cultura localizada no centro de Lisboa. O Chiado localiza-se na encosta a Oeste da Baixa de Lisboa e tem uma delimitação difícil. Até 1880, Chiado denominava a rua desde então conhecida como Rua Garrett, uma das ruas mais importantes deste espaço e historicamente um centro de comércio e cultura. Posteriormente, o nome Chiado passou a figurar no Largo do Chiado (ao cimo da Rua Garrett), antes disso conhecido como Largo do Loreto, por aí se localizar a Igreja do Loreto. Em 1925, é colocada neste largo a estátua do poeta António Ribeiro Chiado, um importante ícone da paisagem urbana desta área. Ao longo do século XX, foi ganhando corpo denominar a área constituída pelo Largo do Chiado, a Rua Garrett e as suas transversais, bem como a Rua do Carmo e a Rua Nova do Almada que ligam à Baixa de Lisboa, como Chiado. Isto acontece porque o comércio de qualidade originalmente presente na Rua Garrett expandiu-se por toda esta área, tornando o Chiado numa das principais áreas comerciais da cidade. Como Janeiro (2006) refere, durante a segunda metade do século XIX e o primeiro quartel do século XX, instalam-se na área do Chiado uma série de estabelecimentos comerciais de referência, como restaurantes, pastelarias e cafés, luveiros, chapeleiros, modistas e alfaiatarias, lojas de confecções e retrosarias, bem como clubes e hotéis. Alguns vendiam produtos de luxo importados, e muitos pertenciam a comerciantes estrangeiros, da Itália ou de França.

Localizam-se aqui também espaços culturais como teatros, cinemas, e livrarias bem como outros locais de encontro de grande importância para a história da cultura lisboeta, como o Grémio Literário, onde emergiu o movimento romantista português, o Casino Lisbonense, onde se reuniam membros do movimento realista, ou o café A Brasileira, um local de encontro importante para o movimento modernista e onde se localiza hoje a estátua do poeta modernista Fernando Pessoa. Muitos destes espaços, como a casa de tabaco importado Casa Havanesa, ou a livraria Bertrand, ainda se encontram abertos hoje. Pela associação à cultura e ao comércio de luxo, o Chiado tem sido detalhado na literatura ficcional como um espaço de ostentação, luxo, moda, e consumo. Ramalho Ortigão chama-lhe a “ladeira vaidosa”, e Fialho de Almeida diz-nos que ali se pode observar “a fina essência da elegância”Desde o início do presente século, uma série de iniciativas de regeneração, que tinham o objetivo de “transformar esta área num centro comercial ao ar livre”, renovaram o seu comércio e edificado. Simultaneamente, o aumento do turismo na cidade de Lisboa também contribuiu para mudar o Chiado, que se tornou num ponto de atração turístico de referência. Nas últimas décadas, alguns apartamentos desabitados no Chiado foram convertidos em hostels e o edifício de um antigo Grande Armazém foi convertido em hotel.

A escolha do Chiado como caso de estudo prende-se com a sua vivacidade em termos de apropriação do espaço público, gerada pela oferta comercial da área, que o torna numa área que vive “ao ritmo das compras” (Kärrholm, 2009). Sendo composto por arruamentos onde a função comercial predomina, o Chiado tem regularmente uma grande densidade de consumidores que sobem e descem as ruas, e entram e saem das lojas, gerando muito movimento na rua. Apenas uma das ruas do Chiado – a Rua do Carmo – é completamente pedonal, pelo que o tráfego automóvel, e de eléctricos no caso do Largo do Chiado, têm uma presença expressiva, gerando um volume sonoro significante. Por outro lado, a presença do património histórico que referimos, nomeadamente as igrejas e estátuas, torna o Chiado num espaço visualmente atractivo, com uma qualidade estética assinalável. No seu conjunto, o Chiado é um local vibrante com uma atmosfera polirrítmica e multissensorial que lhe confere as qualidades ideais para ser tomado como o locus de um estudo sobre ritmos urbanos.

Daniel Paiva

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Marvila_Xabregas   Marvila/ Xabregas

A vasta área de Marvila/Xabregas/Beato situa-se na zona oriental da metrópole lisboeta, nas proximidades do Tejo, e tem sido palco de múltiplas transformações e contradições, desde meados do século XIX. Este é um território atractivo pela constante disponibilidade de espaço associada à localização estratégica face ao centro da cidade e ao Tejo. Inicialmente com orientação de recreio e agrícola, para além da constante actividade económica ribeirinha, esta área estava repleta de quintas que envolviam a periferia urbana do sector oriental da cidade (João Santana da Silva: Marvila Moderna). As quintas dos nobres e os terrenos dos antigos mosteiros foram sendo abandonados, passando a ser ocupados pelas populações que migravam dos campos rumo às possibilidades de emprego oferecidas pela progressiva concentração de fábricas e de armazéns na frente ribeirinha oriental de Lisboa. Este desenvolvimento, iniciado ainda no Antigo Regime, apoiou-se no comércio atlântico e colonial (tabaco, algodão, açúcar…) mas também no comércio nacional (madeiras, vinho, cereais) e associa-se ao crescimento da burguesia comercial. O caminho-de-ferro vem trazer uma nova dinâmica e o projecto da Estação de Santa Apolónia de 1860 vai potenciar o desenvolvimento industrial e comercial deste território. Reconvertem-se quintas, palácios e conventos e surgem fábricas, armazéns, vilas e pátios. Desenvolvem-se assim os pólos fabris de Xabregas, vale de Chelas, Beato, Poço do Bispo, Marvila e Braço de Prata, com as fábricas dos Sabões, da Borracha, dos Fósforos, da Tabaqueira ou do Material de Guerra (Nunes e Sequeira, 2011).

O destino industrial do sector oriental da cidade até Sacavém ficou formalizado no Plano de Urbanização de Lisboa de 1938-48 de Etienne de Gröer e a organização administrativa de 1959 reorganiza as freguesias de Lisboa justificada pelas alterações demográficas onde pesa o crescimento urbano ocorrido na periferia da cidade. É então que surge a freguesia de Marvila. Curiosamente, no decreto que a cria (Decreto-Lei nº 42142 de 7 de Fevereiro de 1959), “fábricas e indústrias são utilizadas como marcos para a delimitação oficial das fronteiras da recém criada freguesia” (João Santana da Silva: Marvila Moderna).

A partir de meados do século XX (1960) ocorre uma profunda intervenção urbanística, programada nas colinas cimeiras a Marvila no âmbito do programa de edificação de Habitação de Renda Económica do Estado Novo (Planos de Olivais Sul e Chelas). A ideia foi a de realojar habitantes dos bairros clandestinos de lata que foram ocupando as colinas e vales de Chelas (exemplo: Bairro Chinês). Na sequência destas iniciativas que se prolongam depois de Abril de 74, com vários programas e políticas de habitação, assiste-se à especialização de um vasto sector de Marvila (Chelas) no alojamento de populações em condições de vulnerabilidade social. Ocorrem diversos bairros no meio de vastos espaços livres, por cuidar, e com ligações viárias pouco claras. Como referem Nunes e Sequeira, “uma paisagem inacabada” (2011:6).

Entretanto, é nas décadas de 80 e 90 do século XX que ocorre o declínio industrial da frente ribeirinha, no processo de pós-industrialização da cidade. Depois de uma intensa vivência industrial que marcou a vida social e associativa da população de Marvila e do Beato, com origens rurais e distantes da capital, assiste-se ao abandono dos espaços fabris e ao envelhecimento da população que persiste no território, nomeadamente na frente ribeirinha.

Patrícia Rêgo

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Mouraria   Mouraria

A Mouraria é um bairro localizado no centro da cidade de Lisboa. Contudo, e apesar da sua localização, esteve sempre vinculado a um certo sentido de margem espacial e social, onde preconceitos de estigmatização e de segregação se foram arreigando, associados à concentração de alguns segmentos da população com maiores carências socioeconómicas. Ao longo dos anos, o bairro foi passando por diversos processos que tentaram limpar a imagem deste território. Actualmente, as intervenções urbanas mais recentes, fazem da Mouraria um bom exemplo para se compreender de que modo os modelos neoliberais de produção de cidade se aplicam a um conjunto de processos urbanos, que através das suas acções transformam o espaço numa mercadoria desejável.

Recentemente, a Mouraria foi objecto de uma intervenção urbana, financiada pelo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), que teve como finalidade a reabilitação do espaço público, tido como degradado e em mau estado, associada a estratégias de valorização sociocultural, das artes, da identidade e da memória (o fado e as marchas populares, por exemplo) daquele território, com o objectivo de auxiliar o processo de regeneração urbana e construir uma imagem que pudesse atrair um maior número de visitantes/turistas. Também os imigrantes de diversas origens foram ganhando relevo nesta intervenção, numa valorização dos imaginários exóticos em seu redor.

A Mouraria é um exemplo de como uma intervenção urbana, assente num modelo económico e financeiro global de produzir cidade, que quis mudar a imagem de marginalidade e segregação social do bairro, tornando-o cosmopolita e turístico, pode incrementar uma série de outros processos de desigualdade e exclusão.

Agustín Cocola-Gant e Ana Estevens

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Porto   Miguel Bombarda – Porto

A rua Miguel Bombarda, no centro do Porto, tem uma extensão de pouco mais de 500 metros, começando na rua de Cedofeita, e terminando na rua da Boa Nova. Nos últimos 20 anos (com mais destaque nos últimos 10) tem sofrido uma transformação funcional e física, que resulta sobretudo da abertura de um número grande de galerias de arte (20-25, sobretudo no último quarteirão). Em articulação com estes espaços está a abertura de diversos serviços como lojas de restauro de mobiliário, lojas de design de moda, lojas gourmet, ateliers de design e arquitectura, e os ubíquos hostels. Encontram-se também alguns edifícios requalificados. A dimensão de investimento e intervenção pública prende-se, para além da participação esporádica na divulgação, apenas com a requalificação muito parcial de um quarteirão, e somente no que diz respeito à sua pedestrianização. O movimento de localização de galerias de arte está ligado em grande parte ao papel inicial de um dos galeristas, o primeiro aliás a decidir estabelecer-se nesta rua, em 1995. Esta transformação tem algum ramificação, ainda que não de forma muito intensa, a 3-4 ruas adjacentes.

Ainda que fisicamente separada da rua de Miguel Bombarda (MB), a uma distância a pé, encontra-se um conjunto de ruas (Rua da Galeria de Paris, Rua Cândido dos Reis, Quarteirão das Carmelitas – teve intervenções no âmbito da Porto 2001 – e algumas praças adjacentes) que têm visto também aproximadamente neste mesmo período de tempo, uma transformação funcional, e a criação de geografias nocturnas associadas a novos bares, discotecas, à ocupação nocturna do espaço público, ao que genericamente se designa de ‘movida’ mais na moda no Porto. Ao contrário destas ruas, MB não tem qualquer elemento arquitectónico de relevo. Ainda que ambas devem à iniciativa privada a grande fatia de transformação, MB não foi alvo de qualquer intervenção de requalificação significativa com fundos públicos.

A rua Miguel Bombarda é ainda habitacional, incluindo serviços diversos que vão desde o Instituto de Solidariedade Social, drogarias e talhos, cabeleireiros e mercearias, à presença de um edifício das Testemunhas de Jeová. Esta transformação funcional e física é acompanhada hoje em dia por um discurso em vários meios (media da especialidade, publicidade diversa, etc.), que indicam ser aqui o SoHo do Porto, que reflecte em parte um ‘espírito’, um ‘ambiente’, um ‘buzz’, que se criou neste espaço e que tem ramificações sociais e espaciais muito diversas.

João Sarmento

Miguel Bombarda_24112017

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  • Madrid | Malasaña e Lavapiés

Contribuição das cenas culturais para o desenvolvimento de Madrid durante a crise: Malasaña y Lavapiés como estudos de caso.

As cenas culturais podem ter um papel importante na resposta inovadora e resiliente de algumas cidades da periferia europeia afectadas pela crise e pelas políticas de austeridade. Tomando o caso de estudo da cidade de Madrid, seleccionaram-se os bairros de Malasaña e de Lavapiés com base numa série de argumentos. Em primeiro lugar, encontramo-nos perante espaços culturais que estão na moda em Madrid, demonstrando maior vitalidade e um carácter vibrante, inclusivamente nos anos de crise. Assim, a visibilidade e o reconhecimento internacional da sua singularidade tem crescido de forma muito notável nos últimos anos. Neste sentido, a interacção global nestes bairros é evidente. É importante destacar os fenómenos da imigração e da multiculturalidade, sobretudo em Lavapiés (onde o peso da população estrangeira superou os 27% em 2014) ou a expansão das actividades de ócio-consumo e gentrificação em Malasaña (onde antes da crise se registou o maior aumento de preços da habitação em segunda mão de todo o centro da cidade). Para além disso, em ambos os casos, existe um interesse crescente do turismo por estes bairros.

Por outro lado, tratam-se de bairros muito centrais (ambos pertencem ao “Distrito Centro”) onde existe uma elevada proximidade entre os distintos actores envolvidos no desenvolvimento da cena cultural. Em concreto, a análise exploratória realizada localiza no Distrito Centro mais de 30% do emprego total em actividades artísticas da cidade, destacando especialmente os casos de Malasaña e de Lavapiés. A acumulação de recursos culturais de todo o tipo, próprios do centro histórico de uma capital como Madrid, e a possibilidade de interacção dentro das redes aí localizadas, em conjunto com a presença de serviços urbanos e de actividades de ócio, explicam a interacção de actores, empresas e agentes culturais. Também não se pode esquecer o papel das estratégias de regeneração urbana desenvolvida desde os anos 1990, o que converte estes bairros em exemplos destacados para reflectir sobre o carácter “orgânico” ou impulsionado pela Administração destas cenas culturais.

Todos estes recursos e redes culturais, em conjunto com movimentos cidadãos de natureza mais “insurgente” ou “alternativa” (em alguns casos com larga tradição nos bairros) estão a ser mobilizados para gerar opções ao modelo urbano de Madrid, fortemente contestado desde a crise. Em poucos bairros da cidade se acumulam recentemente tantas iniciativas de moradores e de inovação social.

Resumindo, as cenas culturais de Malasaña e de Lavapiés têm-se consolidado nos últimos anos a partir de uma destacada trajectória histórica (especialmente no caso de Malasaña vinculado ao movimento cultural da “movida madrilena” do século passado) e da criação de uma marcada identidade, reforçada actualmente pela intensa agenda cultural e pela diversa actividade dos movimentos sociais.       

Simón Sanchez

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  • Atenas | Technopolis, School of Fine Arts and Romantso hub

Estudos de caso de Atenas: Technopolis, School of Fine Arts and Romantso hub

No caso de Atenas os artistas são membros de diferenciadas combinações espaciais e organizacionais. Embora o agrupamento das actividades culturais tenha sido principalmente informal, existem muitas relações de poder e lacunas de planeamento que determinam as estratégias de desenvolvimento urbano. Paralelamente, enquanto as actividades económicas antigas criaram uma dinâmica latente relacionada a memórias e os espaços colectivos, as práticas dos agentes culturais estão relacionadas com a criação de valor económico e social através da mudança na conexão sócio espacial.

A estrada de Pireos é um exemplo característico. É uma estrada estratégica que liga o centro da cidade ao porto de Pireus. A sua dinâmica consiste numa mistura heterogénea de fundações culturais, edifícios industriais abandonados, habitação, actividades comerciais, etc., onde é evidente a necessidade de facilitar as complexas relações entre artistas, instituições e cidadãos relativamente a novas alternativas para o planeamento urbano. A estrada de Pireos é a estrutura espacial onde diferentes cenas culturais desenvolvem acções de inovação sócio-territorial através da mudança nas relações de governança. Neste contexto, serão estudados três casos localizados perto deste importante eixo: (1) Escola Tecopolis em Gazi, (2) das Belas Artes e (3) hub Romantso em Omonoia.

O Technopolis é um antigo espaço industrial que começou a funcionar como museu e espaço cultural em 1999, localizando-se aí muitas actividades culturais, sociais e educacionais. Juntamente com a criação do INNOVAthens em 2014, um centro empresarial que promove a inovação de produtos e a criação de redes entre diferentes actores, a Technopolis contribui para a criação de novas oportunidades através da reutilização de edifícios, activação de políticas periféricas e promoção de actividades empreendedoras, incluindo as que se localizam no campo das artes. A estratégia do Technopolis parece ser diferenciada das estratégias de regeneração mais amplas e que se relacionam com o entretenimento, investimentos imobiliários ou usos low cost.

A Escola de Belas Artes é uma Instituição Pública de Ensino Superior fundada em 1930. O Estado utilizou as instalações de uma antiga fábrica de têxteis, onde se estão instaladas todas as actividades educacionais e laboratoriais da Instituição. A Escola de Belas Artes, em conjunto com outros espaços é representativo do uso do património industrial para criar estruturas artísticas e culturais, sejam elas públicas, semi-públicas ou privadas, e do impacto do plano oficial para a regeneração do espaço com base em pressupostos artísticos ou culturais, mesmo que este tenha falhado. Em particular, a escola de Belas Artes mantém estudantes e artistas, cria sinergias e acolhe importantes eventos culturais. Mesmo assim, o seu impacto espacial, económico e social é limitado.

O objectivo da Romantso era, originalmente, reactivar um prédio abandonado da cidade, envolvendo o público num diálogo mais amplo sobre as artes. Hoje, a Romantso actua como um hub cultural, um centro cultural e oferece serviços para novos negócios e empreendimentos, ao mesmo tempo que co-organiza seminários. Está localizado perto da Praça Omonoia, uma área que enfrenta sérios problemas de degradação e marginalização de grupos sociais mais desfavorecidos. Romantso representa uma nova estratégia de renovação, usando elementos passado aí existentes, para a área circundante, bem como uma nova estrutura de liderança contra a crise económica.

Pavlos Delladetsimas e Georgia Tseva